Manoel Ramires/Senge-PR
Candidatura própria para quê? Aliança com que intenção? Candidato do prefeito. Candidato do governador. Candidato do presidente e ex-presidente. O debate sobre as eleições começa a tomar forma nos partidos políticos e, mais uma vez, se repete a fórmula de primeiro escolher os nomes e só depois debater a plataforma. Neste formato, a discussão fica atropelada, pois, à sociedade, foram oferecidas apenas candidaturas em torno de fulano A, sicrana B. Por outro lado, a estrutura da cidade, seu planejamento e desenvolvimento podem ser discutidos neste momento. E um dos assuntos principais é a Tarifa Zero no Transporte Público.
De acordo com Lafaiete Santos Neves, especialista em Mobilidade Urbana e Transporte Coletivo, “já temos 103 cidades com a Tarifa Zero implementada, incluindo Fortaleza, uma grande capital e sua Região Metropolitana”.
De olho nas eleições, o prefeito de São Paulo Ricardo Nunes implantou a Tarifa Zero aos domingos. Ao discursar, ressaltou que a não cobrança aquece a atividade econômica e o lazer no município. “É uma questão fundamental para a saúde mental, porque o trabalhador recebe o vale-transporte para ir trabalhar e voltar para casa. Por exemplo, um casal com três filhos gasta R$ 44 com transporte, que vai deixar de gastar”, disse Nunes.
Mas a Tarifa Zero não pode ser uma estratégia apenas para render votos no fim de semana. Tanto que a deputada federal Luiza Erundina “está lutando para aprovar a Emenda 25/23 que regulamenta a TZ, garantido gratuidade no transporte coletivo , com controle e transparência equivalente ao modelo SUS, com Conselhos nacional, estaduais e municipais do Sustema Único de Mobiludade (SUM)”, comenta Lafaiete.
O dado concreto é que a população mais pobre deixa 15% da sua renda com transporte. O documento “Avaliação de políticas de custeio extra tarifário dos sistemas de transporte público urbano no Brasil” faz análise dos ganhos privados e sociais por faixa de renda das famílias, determinando qual o abatimento das externalidades negativas com a nova estrutura tarifária que onera alguns itens dos gastos familiares por estrato de renda. Tudo considerando cenários de redução tarifária de 30%, 60% e tarifa livre.
“Quanto à tarifa zero, há indícios de que os custos sociais e privados são maiores do que os benefícios sociais gerados, sem entrar no mérito da distribuição de renda que essa medida provoca e também da melhoria na qualidade de vida dos mais pobres pelo aumento da mobilidade”, diz o estudo de agosto de 2023.
Ainda traz uma importante constatação para os nomes, partidos, coligações e federações que pretendem ganhar as eleições municipais: “Gastos pequenos com transporte público significam que essas famílias apresentam baixa mobilidade justamente em função da sua baixa capacidade de pagamento. Com isso, há restrições nas oportunidades de emprego, saúde e educação. Além das 20% das famílias mais pobres das RMs, as famílias pobres que usam transporte público com mais intensidade, famílias entre o terceiro e o sétimo decil de renda, também teriam ganhos acentuados em termos de mobilidade com essa medida”.
Ou seja, Tarifa Zero traz justiça social.
Curitiba investe em ônibus elétrico, mas não dá passagem para a Tarifa Zero. Foto: José Fernando Ogura/SMCS. 
